Mais uma colaboração para a Notícias Magazine pela mão da Jornalista Sofia Teixeira, desta vez para falar sobre a comparação social e redes sociais.

ST: Começando pelo que menciona: em que sentido fazem as pessoas estas abordagem a conteúdos visionados nas redes sociais no contexto clínico? Isto é uma coisa espontânea/que parte da pessoa, tendo ela uma percepção que foi uma coisa que viu que lhe mudou o estado de espírito?

Daniela Esteves: A maioria das pessoas não têm percepção do quanto as redes sociais e os media em geral influenciam o estado de humor. Quando faço a avaliação inicial de um cliente e observo um diálogo bastante negativo, triste, crítico e com muita expressão de medo, questiono a pessoa das suas influências externas, como o uso de redes sociais – Facebook e instagram e as notícias. Tanto tenho pessoas em consulta que visionam situações muito negativas como também as que comparam a suas vidas com dos amigos ou algum ídolo que seguem. Ambas formas de percepcionar essas “realidades” na sua maioria das vezes não tem um filtro mental. E é aí que introduzo determinadas sugestões de mudanças no visionamento das redes sociais como por exemplo:

Estar atento às reacções emocionais (prática mindful), não procurar informação que sabe que o vai fazer sentir mal, eliminar páginas ou mesmo pessoas, criar filtros no feed para ver o que realmente procura nas redes sociais. Ou gradualmente substituir a interacção no Facebook por actividades mais satisfatórias e com maior probabilidade de sentir propósito e bem estar.

Porém nem tudo é mau, muitas vezes a reacção emocional do visionamento de conteúdo dos outros dá bastante informação do que realmente nos faz falta, seja auto-estima, necessidade de aprovação social, ter expectativas irrealistas, etc.

ST: A teoria da comparação social postula que as pessoas formam opiniões, expectativas e mesmo sentimentos e estados de alma sempre por comparação. Numa altura em que há tantos conteúdos da vida dos outros disponíveis (e sempre os melhores, porque tendemos a mostra sempre o melhor da vida) isto pode ser um problema para quem vê? De certa forma acaba por enviesar a noção da realidade? (por exemplo, as pessoas terem a falsa sensação de que só elas estão tristes)

Daniela Esteves – A teoria da comparação social de Festinger pressupõe que as pessoas avaliam o seu progresso e posição em vários aspectos das suas vidas e, na ausência de objetivos e valores standard, começam a se comparar com os outros. Portanto quando vemos posts de amigos que podem desencadear alegria, ressentimento, tristeza, risos, sofrimento, ciúmes e mais – tudo em breves momentos é muito a nível emocional.

A pesquisa nesta área também revela que recompensas e punições sociais são válidas mesmo online. Se alguém interage connosco de forma positiva online, obtemos as mesmas recompensas neuroquímicas no cérebro, como se fosse pessoalmente. Quando nós somos rejeitados ou ignorados online, também recebemos o mesmo sentimento de rejeição como se fosse pessoalmente. A sensação de ataque emocional activa a mesma parte do cérebro que o ataque físico. A dor emocional é tão dolorosa, tão real quanto a dor física, seja ela proveniente do mundo virtual ou não.

Nenhum de nós está preparado para estarmos conectados para aceitar esse conteúdo emocional todo ao mesmo tempo sem reagir ou ter alguma consequência.

ST: Acabámos de almoçar uma sandes de queijo, abrimos o Instagram e vemos uma foto de um amigo num novo restaurante gourmet. Não temos nem teremos férias há meses, abrimos o Facebook e levamos com álbum de 45 fotos dos vizinhos do lado que estão de férias em Bali. Continuamos desesperadamente à procura de emprego, entramos no Linked In e damos de caras com a promoção de uma antiga colega de escola. Isto deprime as pessoas?…

Daniela Esteves: Essas situações tem todo o potencial para uma pessoa sentir-se mal por estar a comparar a sua vida, circunstâncias e escolhas com a dos outros. Por muito que a nossa vida não esteja a correr bem, comparar via redes sociais ou pessoalmente nunca ajuda. Ao comparar com o outros, colocamos a nós próprios numa situação injusta, cada um de nós é um indivíduo único, especial à sua maneira e numa sociedade competitiva como a nossa precisamos de pensar de forma diferente para obtermos resultados diferentes.

Em vez de entrarmos em comparação imediata, podemos tentar aprender com os outros e as suas concretizações. Em vez de tentarmos ser tão bons ou melhores do que os outros, poderemos concentrar a nossa energia em sermos a melhor versão de nós mesmos.

ST: O mais importante: como contrariar isto? É melhor haver dias em que não se abre o Instagram e o Facebook, ou há outras soluções?

Daniela Esteves: É uma questão individual, há pessoas que eu aconselho que filtrem conteúdos ao máximo, há aquelas que quando estão muito ansiosos ou tristes aconselho que evitem conteúdos que possam exacerbar ainda mais esses estados. E há ainda os que fecham contas de redes sociais para não se sentirem assoberbados com tanta informação e processamento emocional.

Para alguns clientes sugiro o exercício de Mindful Social Media de Dr. Christopher Willard:

  • Encontre uma postura confortável. Faça algumas respirações e leve a sua consciência ao seu estado físico e emocional neste momento particular.

  • Agora, abra o seu computador ou clique no seu telemóvel.

  • Antes de abrir seu site de redes sociais favorito, considere as suas intenções e expectativas. Ao se concentrar no ícone, observe o que se passa na sua mente e corpo.

  • Pergunte-se: Porque vou ver este site? O que estou à espera de ver ou não ver? Como vou responder a diferentes tipos de actualizações que posso encontrar? Ao verificar as redes sociais, estou interessado em conectar ou em desconectar e distrair-me?

  • Feche os olhos e concentre-se no seu estado emocional durante três respirações antes de começar a se conectar.

  • Abra os olhos agora, veja a primeira actualização de estado ou foto, e depois feche os olhos novamente.

  • Observe a sua resposta – a sua emoção. É excitação? Tédio? Ciúmes? Arrependimento? Medo? Como pode experimentar essa emoção na mente e no corpo? Qual é o desejo que sente ao ler? clicar numa reacção, comentário, partilhar-se ou algo mais?

  • Respire uma ou duas vezes e veja as suas sensações e emoções a desaparecer, e observe o seu corpo e/ou os sons que o rodeiam.

  • Experimente esta prática por três ou cinco minutos com alguns posts.

Ao perceber como as redes sociais fazem sentir a cada um de nós pode ajudar a descobrir como usá-lo com mais atenção. À medida que a pessoa se torna mais consciente das emoções poderá tomar melhores decisões sobre a frequência com que visitar determinados sites.

A tecnologia não nos define, apesar das redes sociais tentaram nos colocar em categorias e nos reduzir a uma série de gostos e interesses. Examinar e mudar a nossa própria relação com a tecnologia abre-nos a porta para ensinar através de exemplos e para praticar novas formas de tornar a tecnologia favorável à comunidade e ao bem-estar.

 

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